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O resumo, do resumo, do resumo
2. Não estou tão convicto de que as bases para esta teoria dos quatro temperamentos decorram primordialmente de Hipócrates (460-337 a.C.) no sentido como é usado atualmente. De fato, foi ele quem concluiu a respeito dos humores, mas não necessariamente correlacionava as predominâncias do sangue, bílis amarela, fleuma e bílis negra às pessoas, mas às doenças — esta questão não é tão simples de ser explicada, mas sua explicação pelos hipocráticos é excepcional, relacionada às estações e outros pormenores interessantíssimos. Historicamente falando, assim como o Padre Paulo Ricardo fala em curso sobre o tema, vamos dar um “salto triplo mortal” e ir até Cláudio Galeno (129-216 d.C.), que também tratou do assunto, embora não entendamos que tenha se debruçado sobre a coisa de maneira psicológica, comportamental, como supostamente se observaria atualmente, embora este crédito lhe seja dado. Aliás, ambos tratavam de medicina propriamente dita, inclinados àquilo que veio, muito tempo depois, a ser chamado por ciência. Vale dizer que Aristóteles (384-322 a.C.), de certa forma, estabeleceu certas relações sobre elementos primordiais, notadamente fogo, ar, terra e água, assim como em textos de Empédocles (495-430 a.C.), mencionado em “Sobre a Medicina Antiga”, porém, mais como filosofia do que a arte médica.
3. Os humores, em algum momento, passaram a representar não apenas sintomas, mas também características pessoais, mas tal precisão depende de conhecimentos de certos tratados, como os de Avicena (980-1037), havendo um certo limbo referencial entre este e Galeno, ou seja, uma grande lacuna sobre como essa teoria dos quatro temperamentos necessariamente deixou de se relacionar com doenças para ganhar, digamos, uma certa abrangência, cujo teor ainda merece o suspense. Santa Hildegarda de Bingen (1098-1179), em “As Causas e as Curas”, também se referia de maneira hipocrática a respeito de enfermidades, mas já estendia certas características para as pessoas, como elas comportavam por causa delas, se mais sanguíneas, coléricas, melancólicas ou fleumáticas. São Tomás de Aquino (1225-1274), mais voltado para Aristóteles, não deixa de observar o que foi transmitido do ponto de vista hipocrático e leva mais em consideração as questões relacionadas às virtudes para debater na “Suma Teológica” e “Suma Contra os Gentios”, por exemplo, aquilo que inclinaria a alma a isto ou aquilo, situando o lugar do corpo, da alma, além de todo o conjunto de relações que mantém pelo apetite, intelecto etc. Nos textos católicos, por assim dizer, existem aquelas “coisas” que os iluministas, depois, passaram a chamar de “superstição”, como soluções que mencionavam participações angélicas ou demoníacas, mas que não fizeram de boa-fé, uma vez uma parte significativa da magia presente no misticismo, ainda que neguem tal fato, seja possível ser identificada no pensamento de certos filósofos do iluminismo, como no caso do Immanuel Kant (1724-1804).
Renascimento, mas de quê?
4. Eu não sei, honestamente, como os “tratadores” que trataram (redundância irônica) desse assunto simplesmente pulam as considerações de Paracelso (1493-1541), cujo nome completo, se estampado na capa, passaria para a contracapa facilmente: Phillipus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim — mostrando que Arnold Schwarzenegger não é tão gigante assim como pensam. Então, para aquele médico suíço, notadamente protestante e adepto de conhecimentos do misticismo, os humores, conforme havia sido descrito por Hipócrates e Galeno, precisavam receber um “ponto final” — para ganhar reticências na astrologia que praticava! Como esta Carta Inquirida tem um tom mais informal, apesar do rigor da pesquisa continuar sempre o mesmo, ´mas não negando possíveis equívocos, vale a pena dizer que a pessoa aí, do nome grande (não o ator austríaco), curtia determinar destinos através do horóscopo e fabricar talismãs, um artefato que tanto magistas (aqueles que praticam magia), católicos e protestantes honestos, concordam em um ponto: não é possível afirmar se a incidência dos “poderes” nesse processo de fabricação talismânica eram angelicais ou demoníacos (para distinguir espíritos bons e maus), sento sempre, portanto, um objeto duvidoso e, para quem de fato é cristão, totalmente vetado, de um jeito ou de outro — algo que os iluministas, tão aversos às superstições, não fizeram conta de refutar, fazendo vistas grossas para isto e tantas outras coisas, desde que possam expandir o pensamento anticatólico.
5. Além disso, Paracelso, como bom praticante do ocultismo (que eu incluo como um dos ramos mais perversos do misticismo), já ocultava conhecimentos que eram encontrados em Santa Hidelgarda, sobretudo em questões de botânica, e a doutrina de São Tomás relativamente à alma e o corpo, por exemplo, sobre as potências, que pelo médico suíço, como dito, notadamente protestante, são tratadas de um modo que hoje seriam mais próprias do kardecismo. Noutros termos, ele fica com “raivinha” da teoria dos quatro temperamentos, que percorreram a Europa medieval inteira também por meio do catolicismo, para inaugurar uma que fosse mais astrologicamente compatível. Agora assim: o “ocultista” máximo, cuja obra já traz tal termo como título, qual seja, “Três Tratados de Filosofia Oculta”, rebate o cara do nome grande preservando o tradicionalismo hipocrático e galênico, sem contar com sua adesão à Aristóteles. Quem fez isso foi Heinrich Cornelius Agrippa von Nettesheim (1486-1535), que por sua vez demonstrou, através do antagonismo realizado, uma necessidade de mudança de paradigma desejada no protestantismo. Ele mesmo, embora não seja um santo e, talvez, sequer possa ser considerado um bom cristão por muitos, afirmava que somente a Igreja Católica Apostólica Romana era a única verdadeira — o que nós vemos em seu trabalho, que tem trechos muito problemáticos acerca da fé, assim como é possível observar em tantos outros trabalhos realizados no período renascentista. E o ponto, neste momento, é o seguinte: enquanto aquele, ocultando definições e conceitos hildegardianos e tomísticos, realizava uma espécie de revolução alquímica (que, por princípio, relaciona-se com astrologia), muito difundida no continente europeu, este outro preservava tais conhecimentos, incluindo uma astrologia que bem foi empregada no sentido hipocrático, mas que não resistiu às explorações dos horóscopos, sendo parte divinatória, porém, com um tom mais sério do que as previsões feitas na seção “astral” de jornais atuais.
Ponto de virada: do real ao simbólico
6. Longe de querer fazer uma defesa de Agrippa, mas sem deixar passar esse ponto histórico, é importante perceber que o Renascimento (1350-1600) foi marcado por revanches que extrapolaram uma só narração, como se vê nos periódicos escolares ou mesmo em trabalhos acadêmicos, pois os motivos que “abalaram” esse período não são meramente políticos, como é ensinado (para fazer valer aquela coisa toda marxista da mais-valia, tendo por base um suposto modelo medieval — que tantos comunistas, no fundo, no fundo, tanto desejam, mas para nele serem senhores feudais). As mudanças de mentalidade, que romperam com a Igreja Católica, criaram ramificações que abandonaram qualquer explicação metafísica aristotélica-tomística sobre alguma coisa para adotar alternativas mais holísticas, porém, baseadas em um antropoteísmo galopante (literalmente, pois poucos foram os que não se tornaram verdadeiras mulas nesse processo, notadamente os que se fixaram mais na ciência, por um lado, e os que se mantiveram focados na teologia, por outro, embora muitos cientistas não deixassem de ser teólogos — e vice e versa). Ainda aqui, pulando um pouco os pormenores da Guerra dos 30 Anos (1618-1648), embora seja relevantíssima nos processos de alterações nas civilizações europeias, e antes de falar de Carl Gustav Jung (1875-1961) e personalidades proeminentes posteriores, mais contemporâneas, voltemos ao já mencionado Kant. Ele, por sua vez, em “Antropologia de um Ponto de Vista Pragmático”, chega em definições sobre sanguíneos, coléricos, melancólicos e fleumáticos que não parecem excluir uma apreciação astrológica, dado que não encontramos tantos detalhes assim em obras que se mantiveram dentro daquele rigor hipocrático e galênico, ao contrário daquelas que observam o horóscopo mais na forma de Paracelso do que de Agrippa, por exemplo. Isso levantou suspeitas de como as características sobre as pessoas são expostas — aliás, de como elas mesmas são classificadas nesse sistema (simbólico, como será visto).
7. As definições de Kant sobre uma teoria dos temperamentos não são relacionadas à fisiologia humana, mas à fenômenos psicológicos, tentando ser mais simbólicos, embora uma coisa ou outra nitidamente seja demasiadamente determinística, sendo mais voltadas aos humores ou à astrologia — só que ele não diz isso, né? Em tese, toda sua tese (outra redundância irônica) é racionalista, mas sua metafísica tem “resquícios” longe disso, que ele propagava e que foi, de certa forma, observada como inovação. O que ele fez acerca do sanguíneo, colérico, melancólico e fleumático (ar, fogo, terra, água; Júpiter, Marte, Lua, Saturno) foi ressignificar aquilo que é possível encontrar para as tríades zodiacais: a) Gêmeos, Libra, Aquário; b) Áries, Leão, Sagitário; c) Touro, Virgem, Capricórnio; d) Câncer, Escorpião, Peixes. Ora, se eu dissesse que alguém “[...] se inflama rapidamente como o fogo na palha, [mas] deixa se apaziguar logo pela condescendência dos outros, se zanga a seguir, sem odiar, e ama tanto mais aquele que condescende logo com ele”, creio que não encontraria grandes obstáculos de encontrar, visitando literaturas contemporâneas, confusões inúmeras que vão desde a astrologia e alquimia renascentistas até sistemas, também difundidos nesse tempo, que envolvem o tarô, cabala, eneagrama etc. Depois disso, é claro que outros tentaram equalizar a coisa toda, como se pode ver nas obras de Jung, que alguns psicólogos não gostam por equalizar aspectos religiosos, esterilizando sua historicidade. Mas não vou entrar no mérito junguiano, pois cada trabalho é extremamente extenso e profundo. Melhor que isso, vamos direto ao ponto de alerta — mas que foi preciso dizer tudo isso, ao menos.
Simbologia para uns, realidade para outros
8. Os terapeutas de hoje, dadas as críticas já feitas, confundem ainda mais a coisa toda quando não possuem o rigor acadêmico (não uma mentalidade academicista engessada). Claro que se eles existem agora é por conta de uma necessidade que se faz presente, como é o caso da psicologia estar inundada de ideólogos, que já se distanciaram (muitos, não todos, claro) da ciência para se aproximar, abraçar, deitar e rolar com meras práticas de militâncias partidárias — a gente sabe disso, mas não é motivo para esculhambar a coisa de uma vez por todas com papagaiadas de quem só corresponde a quem diz “meu louro, dá-me aqui o pé”. Existem problema muito maiores, como se vê nas teorias que aproximam as realidades irracionais daquelas que deveriam ser racionais, mas que têm se mostrado cada vez mais compatíveis com aquelas dos cachorros, bombos e ratos. Neste ponto, vou tentar ser bem objetivo, já que tal temática voltará a ser (se é que já não foi) abordada aqui no Enquirídio. Quando, por exemplo, Ivan Petrovich (1849-1936) realizou seus experimentos em cães, utilizou para certos comportamentos as mesmas designações kantianas, por assim dizer, mas com nomenclaturas diferenciadas em certos textos (como relatórios), estruturando a coisa toda no sentido de dizer que existem animais mais aptos a isto ou aquilo por causa desses temperamentos, o que já é próprio das concepções eugenistas, que é outra longa história, mas que é possível compreender a preocupação em De Gênio à Eugenista — C.I. #07. Do ponto de vista “terapêutico”, existe por parte de alguns uma necessidade de enquadrar os pacientes em sanguíneos, coléricos, fleumáticos e melancólicos, no sentido de antever comportamentos, como uma espécie de spoiler, mas que não passa de adivinhação barata, para não dizer preconceito na maioria das vezes, como se o homem, por si só, não fosse um universo de possibilidades — e que muitos, dizendo-se católicos (estando mais para caóticos), esquecem-se do poder da graça ou mesmo das operações que Nosso Senhor faz para modificar certas mentes, para que suas almas possam se voltar mais para Ele ao invés das perdições de um mundo conturbado. Fato é que uma parte sofre de medos e, infelizmente, são potencializados por criadores de neuroses. Por outro lado, existe a subversão causada por “cosplayers de psicólogos”, que estão aí para transformar toda rocha em borboleta, mas jamais o contrário, conforme imposições autárquicas, mas que vem de uma liderança ou outra, apenas — os entendedores entenderão. Deixando de lado os particulares e voltando a atenção para algo mais geral, em um estado (que já se confunde com governo no Brasil) que centraliza educação, postos de trabalhos e procura regular absolutamente tudo, ou seja, dentro de um totalitarismo disfarçado de democracia, é muito perigoso segregar as pessoas por “alfas”, “betas”, “gamas” e “deltas”, ainda mais dentro de uma cultura eugenista. As ideias de performance, que são exploradas em trabalhos, educação e, sobretudo, na hipersexualização das sociedades, têm dominado um cenário cada vez mais crescente, fazendo com que, mesmo que indiretamente, as massas se preocupem com essas posições, especialmente quando inseridas em ambientes de controle extremo, como são as mídias sociais de um modo geral.
9. Burrhus Frederic Skinner (1904-1990) não vai me deixar mentir: uma engenharia comportamental é possível. Seus pombos mostram isso de maneira exemplar, quando são treinados para obedecerem certos comandos por “saberem” que serão recompensados. Cria-se, de certa maneira, uma espécie de vício. É como o “curtir” e demais botões de engajamento, que podem significar ganhos aos “influencers” numa mídia social como o Instagram. Porém, se nesses ambientes digitais houvesse liberdade, honestidade algorítmica, talvez o problema fosse menor, mas é sabido, desde 2014, que a empresa que gerencia tal plataforma, assim como Facebook e WhatsApp, já “brincou” de manipular comportamentos (veja o caso da Cambridge Analytica como um ótimo “aperitivo” sobre isso — valendo dizer que muitos psicólogos se envolveram diretamente com isso, o que os torna, hoje, mais passíveis de serem mal vistos, embora isto não devesse ser abrangente). Adiante, quando falo de ambientes de controle extremo, refiro-me exatamente às mídias sociais, verdadeiras ciladas se usadas de uma maneira não racional, pois elas, além de serem drogas dopaminérgicas, dado os loopings de conteúdos curtíssimos e geralmente estimulantes (“entretenimentos”), condicionam as pessoas a fazerem coisas semelhantes, a terem opiniões muito parecidas, mesmo que possam ser minimamente divergentes, mas que são agrupáveis por “esse é alfa, mas esse é delta”. E a conclusão mais chocante disso tudo, sabendo que bilhões de usuários no mundo inteiro já se encontram fisgados por tal “realidade”, é que cada vez mais as classificações sociais sobre “betas” e “gamas” parece funcionar às campanhas eugênicas, quando colapsos populacionais se tornam previsíveis por fatores de densidade demográfica atreladas ao escoamento populacional (aglutinação desnecessária), com cidades mega povoadas e espaços pequenos, enquanto os campos vão ficando inabitáveis e suscetíveis à ideologias de máquinas em substituição do homem, mas que, ao mesmo tempo, são apresentadas como soluções. Isso tudo se relaciona à preocupação inicial no sentido de que as características humanas podem ser canalizadas para que sejam “isso” ou “aquilo” a depender da necessidade, mas de quem ou do quê? John B. Calhoun (1917-1995), através de experimento com ratos numa espécie de cidade do “welfare state”, demonstrou como uma população bem nutrida, mas sem propósito, tornou-se autodestrutiva ao ponto de se exterminar (busque sobre o “Universo 25”). Antagonistas deste teste procuraram refutar suas conclusões por se basear em animais irracionais. Contudo, ocultam um dado importante: se atualmente o que é preciso não é prender o corpo, mas a mente de um indivíduo, então qualquer ambiente digital que funcione como interface pode vir a ser exatamente um desses universos de autodestruição — o que não é mais uma especulação, cabendo aos influenciáveis se precaverem da manipulação e efeitos mais nocivos desse fenômeno. Então, reforçando que todo esse conteúdo é uma introdução muito simples (ainda que demande algum tempinho de leitura), todos esses modelos que procuram descrever alguém em definitivo encontram problemas gravíssimos, que por um lado se relacionam com bases do misticismo, mas que por outro lado pode corroborar aspirações que ora influenciam, ora são influenciadas, direta ou indiretamente. Por uma perspectiva mais condizente, melhor é a exploração científica que consegue situar cada um, dentro de suas respectivas demandas, observando critérios clínicos em parceria com outros profissionais da área da saúde e aplicando a linguagem simbólica necessária a depender da possibilidade, tanto do terapeuta, quando do paciente, sem que lhe seja imposto um rótulo falacioso, que não é nem diagnóstico, nem horóscopo — talvez um “curupaco papaco” qualquer.
A reviravolta na história dos temperamentos
10. Por mais que alguém possa ser visto como sendo de “pavio curto”, na verdade é sempre preciso saber se seria isto algo constante ou se se relaciona com alguma coisa específica, para não falar de tantos outros fatores. Basta imaginar o seguinte: se eu sempre me encontro com uma determinada pessoa, e ela é explosiva na maioria das vezes, poderia concluir que ela estaria enquadrada no temperamento colérico? Segundo descrições em “Os Temperamentos” (também sob o título “Conhece-te a ti mesmo”, em alusão às inscrições do Templo de Delfos), atribuído ao “padre Conrad Hock”, “O colérico se irrita fácil e fortemente; se sente impulsionado a reagir de imediato; a impressão fica por muito tempo na alma e facilmente conduz a novas irritações.” — que não difere muito das definições kantianas. Acontece que tal trabalho, supostamente, tem sua primeira impressão realizada em 1934, enquanto um trabalho anterior, do reverendo Alexander Whyte (1836-1921), intitulado “Os Quatro Temperamentos”, datado de 1895, relaciona justamente o que é sanguíneo, colérico, fleumático e melancólico mais às suposições orientadas à psicologia do que aos humores propriamente ditos, mas que não foram menosprezados do ponto de vista hipocrático ou galênico, uma vez que, consoante tradução em português do texto original em inglês: “[...] ‘Se a alma de um homem’, diz Boheme, ‘está revestida da tez colérica, então ele é tentado a ser um homem ardente, feroz, irritadiço e iracundo. Essas coisas surgem na alma do homem colérico: raiva, orgulho, ambição e desejo de exaltação [...]’.” (págs. 29-30). Esse trabalho é inteiramente dedicado à Jacob Boehme (1575-1624), que por sua vez produziu trabalhos extensos, sendo um autor importante da teosofia da Renascença, especialmente por reexplorar o misticismo sob uma perspectiva protestante, donde tantas concepções aconteceram e perduraram até chegarem ao presente momento, no qual os simbolismos temperamentais, por assim dizer, procurando ancoragem em heresias, pelo visto, rememoram todo processo de paganização do ocidente. No âmbito teosófico moderno, derivado da corrente de pensamento proveninente de Helena Petrovna Blavatskaya (1831-1891), cujas ideias se mostram através de um satanismo encoberto, que é o véu que ela diz tirar de Isis, existe ainda a figura de Rudolf Steiner (1861-1925), fundador Pedagogia Waldorf, notadamente vinculada ao neopaganismo contemporâneo, quem teceu alguns comentários a respeito do sangue, bílis amarela, fleuma e bílis negra em “O Mistério dos Temperamentos”, dizendo, por exemplo, “[...] que num homem tudo provenha do seu eu, que tudo o que ele sente, ele sente com intensidade porque seu eu é forte, e então chamamos isso de temperamento colérico.” (pág. 9). Ou seja, tais conhecimentos, depois do “liquidificador” que foi o período renascentista, se misturaram com tantas outras inclinações ao ponto de tratarem não de seres humanos, nem de forma fisiológica, nem psicológica, mas meramente simbólica, através de atributos simbolicamente condizentes com isso ou aquilo, sendo, talvez, plausível em um ou outro fator predominante, mas que não revelam o que é um indivíduo desde sua tenra idade, como certo pensamento determinístico tenta propsperar equivocadamente, inclusive no meio do clero, cujas aspirações são legítimas, porém, limitadas a instrumentos totalmente questionáveis.
11. Essa reviravolta mostra que, por referências rastreáveis, é possível remontar a transformação do pensamento hipocrático e galênico sobre os humores e, por sua vez, os supostos fundamentos temperamentais, em concepções simbólicas, passíveis de se relacionarem com sistemas variados de intepretações da mentalidade e comportamento humano, ainda que de um modo restrito ou ainda primitivo em detalhes, mas que, com o avanço da temática e consequentes aproveitamentos por tantos outros ao longo do tmepo, tornou-se mais robusta e aceita como sendo algo seguro. Antonio Royo Marín O.P. (1913-2005), um teólogo sério e muito responsável, talvez por força dessa repercussão e usabilidade, também recorre à teoria dos quatro temperamentos por uma abordagem fisiológica, que não nos parece acertar, ainda assim tratando do sanguíneo, colérico, fleumático e melancólico segundo o parecer do “padre Conrad Hock”. Como se sabe, tudo isso é visto com bem mais detalhes em trabalhos produzidos na época do próprio Renascimento, motivo pelo qual, tudo aquilo que rememora o final do séxulo XIX e início do século XX termina sendo, noutros termos, uma “sopa de letrinhas” que ora busca no misticismo seus pressupostos, ora tem espasmos de lembranças em Hipócrates e Galeno, mas sem necessariamente indicarem “o quê”, “como” e o “porquê” em suas principais obras, que, agora, por serem superadas pela medicina moderna, funcionam mais como heurística. Na psicologia, por sua vez, talvez algum terapeuta honesto possa se valer dessas nomenclaturas para facilitar relações complexas do comportamento, mas não porque todo colérico, por exemplo, seja “pavio curto”, mas por causa de em certas circunstâncias a pessoa ser tomada por uma cólera, cuja previsibilidade — ainda que ambientes, indivíduos e estados emocionais sejam os mesmos para tal reação — não pode ser declarada, pois cada qual pode, dado os conhecimentos sobre si mesmo, reverter tal quadro de colericidade, fazendo sumir aquilo que equivocadamente lhe seria atribuído como rótulo pelos famigerados papagaios de pirtata, que “repetem-petem” sem saberem de onde a coisa toda sobre ar, fogo, terra e água vem e por onde ela andou.
12. Sim, foi um texto longo e ainda superficial, motivo pelo qual introduz, de um modo não muito maçante, talvez, o problema acerca dos quatro temperamentos, que por ora, devem ser melhor revisados sob aspectos aferíveis pelas áreas afins, que sejam capazes de contribuir observando os seres humanos em toda sua complexidade ao invés de fatores “assim” ou “assado” no intuito de fomentarem especialidades que, sozinhas, não servem de absolutamente nada para este empenho. É uma questão prudencial, para que ecos do passado, incluindo os ruídos agregados por reverberações ao longo dos séculos, não se transformem em barulhos insuportáveis. Melhor que sejam, de fato, orquestrados, para que, como numa sinfonia, as coisas tenham pleno sentido ao invés de sentidos isolados, porém, determinantes para toda melodia, como quem tira o todo pela parte. Por fim, o mais importante nisto tudo não é afirmar que, por exemplo, Marín, através de “Hock”, baseou-se indiretamente em Kant. Não é isso. Porém, como de Hipócrates e Galeno até estes, tantos outros interviram em conceituações, deslocando o que antes era próprio dos humores para aspectos mais místicos e, depois, psicológicos, acerca do sanguíneo, colérico, fleumático e melancólico, fica difícil sustentar uma ponte que não tenha a quantidade necessária de pilares por causa da sua grande extensão, para dizer que os conhecimentos hipocráticos e galênicos chegaram nesse nível de clareza temperamental até os trabalhos mais recentes, com esse nível de especificidade sobre características inatas de cada um — o que é visto, por tal perspectiva, ocorrer nas derivações do misticismo ao invés da medicina e psicologia. Para referenciar esta postagem: ROCHA, Pedro. Cartas Inquiridas #10. Enquirídio. Maceió, 22 abr. 2026. Disponível em https://www.enquiridio.org/2026/01/papagaio-de-pirata-ci-10.html. Pedro Rocha é católico, casado desde 2014 com Larissa Rocha – temos dois filhos na terra e um(a) com Papai do Céu. Tem por Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI) especial admiração, bem como por Dom Henrique Soares. Devoto por São Tomás de Aquino. Aluno de Padre Paulo Ricardo. Bacharel em Direito e Design, cursa nas áreas de Semiótica, Gestalt, Behaviorismo e Simbologia. Mantém particular interesse sobre gêneses e declínios civilizatórios na antiguidade e reflexos na modernidade. Instagram. Siga o perfil do Enquirídio no Instagram. Threads. Acompanhe o Enquirídio também pelas Threads.

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